A CANÇÃO DO TRENSINHO PIUÍ
Sempre que Piuí tentava cantar, o vapor escapava de forma desajeitada e saía apenas um som estridente e seco: — Piuí! Piuí!
8/20/20263 min ler


Lá no encantado Vale das Garças, onde os riachos cantavam com as pedras e as garças brancas enfeitavam o horizonte como nuvens de algodão, vivia o trenzinho Piuí.
Piuí não era um trem comum. Ele tinha vagões pintados de azul-celeste, rodas que brilhavam como botões de prata e um coração que batia no ritmo compassado dos trilhos. Mas o que mais diferenciava Piuí de todas as outras locomotivas que passavam pelo vale era o seu maior segredo: ele guardava dentro da caldeira as melodias mais lindas e doces de todo o mundo.
Porém, por muito tempo, ninguém conheceu essa música.
Sempre que Piuí tentava cantar, o vapor escapava de forma desajeitada e saía apenas um som estridente e seco: — Piuí! Piuí!
Os outros moradores do vale, que ouviam o barulho de longe, balançavam a cabeça. — Ah, é só o Piuí fazendo barulho de novo — dizia Dona Coruja, a diretora da Escola de Canto dos Pássaros, ajustando os óculos na ponta do bico. — Trem foi feito para carregar carga, não para soltar notas musicais. Ele só sabe assobiar!
E o pobre Piuí murchava a fumaça. Ele engolia o choro, recolhia suas notas secretas para o fundo do peito e continuava sua viagem pelos trilhos, sentindo que o seu maior sonho — o de cantar para todo mundo ouvir — nunca se realizaria. Ninguém o levava a sério. Para a comunidade do Vale das Garças, Piuí era apenas um meio de transporte barulhento.
Até que, numa manhã de primavera, um grande cartaz foi afixado na estação principal:
GRANDE CONCURSO DE CANTO DO VALE DAS GARÇAS! Venha mostrar a sua voz e encantar o coração do vale. Aberto a todos os habitantes!
O coração de Piuí deu um salto dentro do peito. — Será que... será que eu devo tentar? — sussurrou ele para uma borboleta azul que pousou em seu para-brisa. A borboleta bateu as asas, como quem dizia: "Vá em frente!".
No dia do concurso, o palco foi montado bem no coração do vale, à beira do lago onde as garças reinavam. A concorrência era fortíssima. O Sabiá-Laranjeira cantou uma ária que fez o sol parecer mais brilhante. O Sapo-Cururu entoou um blues grave que sacudiu as folhas dos nufares. Até o vento nas árvores tentou participar. Todos aplaudiam, maravilhados.
Quando chegou a vez de Piuí, um silêncio curioso tomou conta da plateia. Alguns animais riram baixinho. — Lá vem o trem do "piuí-piuí" — cochichou o Coelho Sansão.
Piuí parou bem em frente ao palco. Ele fechou os olhos, respirou fundo o ar puro do vale e sentiu o calor do fogo em sua fornalha. Ele lembrou do som das águas, do vento balançando os salgueiros, do balé das garças no lago.
Decidiu que não ia apenas fazer barulho. Ele ia deixar a sua alma sair através do vapor.
Piuí abriu a válvula principal lentamente. Em vez do som seco de sempre, uma baforada de vapor quente subiu aos céus, desenhando notas musicais prateadas no ar. E então, ele começou.
Não foi um simples apito. Foi uma sinfonia mágica. O som lembrava o rodar dos trilhos em uma noite estrelada, misturado ao canto suave das garças e ao murmúrio do vento nas montanhas. A música era tão rica, tão emocionante e cheia de carinho que os pássaros pararam de cantar para escutar. As flores pareciam balançar no ritmo da melodia.
Quando a última nota ecoou pelo Vale das Garças, houve um segundo de silêncio absoluto.
Então, o vale inteiro irrompeu em aplausos estrondosos. Dona Coruja tirou os óculos, limpou uma lágrima de emoção com a asa e gritou: — Magnífico! Nunca ouvi nada tão belo em toda a minha vida!
Os jurados não tiveram dúvida. O troféu de primeiro lugar foi entregue a Piuí, que recebeu uma coroa de flores silvestres colocada bem na ponta da sua chaminé.
Daquele dia em diante, o trenzinho Piuí nunca mais foi visto apenas como um meio de transporte. Ele se tornou o cantor oficial do Vale das Garças, provando para todos — e principalmente para si mesmo — que nunca devemos deixar de acreditar na nossa própria música, por mais diferente que ela seja.